terça-feira, 1 de junho de 2010

CAMINHOS TORTUOSOS

Não costumava ir por aqueles caminhos, mas, neste dia, pensei que talvez, por ali, conseguisse me livrar do engarrafamento. Poderia, quem sabe, aproveitar um pouco mais da noite na companhia de minha esposa. Embora não devesse considerar a mudança de ânimos dela. Logo agora! Deveríamos estar com a relação mais sólida com a chegada do bebê. A ausência e os pensamentos longínquos devem ter relação com a maternidade.
Nada me tira mais do sério do que ficar preso no trânsito! – assim, Marcelo seguia por um emaranhado de vias, ruas e becos que se, após alguns instantes, fosse indagado acerca do caminho que trilhou, ele mesmo não saberia responder. A certa altura, já próximo a sua casa, Marcelo franzi a testa devido à impressão de ter visto um rosto conhecido. Quando aqueles sulcos se acentuavam na face de Marcelo, era quase certeza. Ele pára. Olha pelo retrovisor e reconhece a silhueta da figura na esquina, sentada ao meio-fio. Sim, é ele! Marcelo estaciona o carro e segue, agora a pé, em direção a Jorge.
Jorge fora um amigo muito íntimo do casal. Sempre presente. Prestativo. O que nunca ficou claro – e minha esposa nunca se posicionara em relação a isso – dizia respeito ao seu sumiço. Jorge sumira. Atendia o celular, verdade, mas nunca conversava. Ocupado, muito! Não almoçaremos! Não dá! Nunca mais viria a nossa residência. Não, nunca.
Ao vê-lo ali, abaixado, na sarjeta mesmo, os cabelos cobrindo-lhe a fronte. A face descaída como se nos ombros amparasse todas as angústias do ser humano. Os olhos, catalépticos, rijos fixavam o nada. Um fugitivo! Marcelo perscruta-o: o que houve, homem? Agora perplexo: você, nesse estado?! Me diga, vamos? Com a disposição de quem luta para salvar um filho do abismo, Marcelo esforçasse para erguer Jorge, segurando-lhe por baixo dos ombros. Chumbo, puro chumbo! É quando percebe, ao aproximar-se, uma mancha de sangue no pescoço do amigo.
Marcelo, o filho não era meu!