terça-feira, 5 de outubro de 2010

MÁGOA SENTIDA

Mantinha os olhos fechados. Sabia que a visão de suas mãos seria de peso, na consciência, na vida. No entanto, após o ocorrido não conseguira sair dali. Sentada. As pernas cruzadas, a cabeça baixa. Assim se mantinha sob a mesa, encolhida, uma posição quase fetal.

Tinha sonhos, muitos, de quando criança. Esperava casar, queria! Os filhos seriam uma conseqüência natural. Teria um marido de quem poderia cuidar e uma casa, a qual manteria com brio. Mas os filhos não vieram. Desesperou-se, a idade avançava. O marido perdeu os encantos, o filho não chegara. Um casamento quase desfeito e a certeza da infelicidade. Mas o que não fazia sentido era aquela posição em que se encontrava. Que desfecho seria aquele, quais acontecimentos a levaram a buscar, naquela posição, a mesma segurança sentida por um feto abrigado, ainda, no ventre de sua mãe? Sabia que não poderia olhar. Que o cenário à frente e ao derredor mancharia a ilusão que a mantinha ali, quase encapsulada, na busca de uma resposta que não a desabrigasse, que fosse suficiente em si mesma para mantê-la no faz-de-conta, e como uma criança em meio ao escuro, os olhos cerrados, o frio na barriga, protelava o inevitável.

Nunca esperei grande coisa dela! Sabia que Iracema não me daria um filho, parecia doente, um bicho coxo, amuado. Isso me irritava! Era daquelas mulheres que precisam de uma surra diária para enfrentar o dia. Que senta a porta e comenta a vida alheia. Daquelas que deixam o marido ir ao trabalho com a roupa amarrotada. Não estudara, queria casar. Seria mantida por um homem a vida toda e que, após a morte, legaria a esta infeliz uns poucos trocados como pensão, o que lhe proporcionaria uma felicidade inefável, pois tendo em vista seu projeto pessoal sobre a terra, estenderia seus dias de plena e incontestável vadiagem. Ao que me parece, ao menos desde que a conheci ainda nova, é que não fora puta, no mais, não valia nada.

E eu ainda me encontrava ali. Ainda não recobrara forças suficientes para abrir os olhos. Sei que tremia, soluçava largo e sentia a boca arder, inchada. O gosto de ferro à boca. Percebera que engolira algo, consistente com uma pedra, lisa e alongada e mesmo que tentasse não me seria possível abrir o olho esquerdo. Mas, o medo parece nos obrigar a tomar decisões. Abro o mínimo possível a visão que me restara. A miragem que apareceu, no cenário descoberto ali, trouxera-me lembranças que eu acreditava não pertencerem a mim. O piso da cozinha refletia em vermelho sangue, a visão mais aterradora que já tivera: Martim estendido, já pálido sem sangue. O ventre aberto, a língua cortada, os olhos perfurados. Fora a primeira e última vez!

terça-feira, 1 de junho de 2010

CAMINHOS TORTUOSOS

Não costumava ir por aqueles caminhos, mas, neste dia, pensei que talvez, por ali, conseguisse me livrar do engarrafamento. Poderia, quem sabe, aproveitar um pouco mais da noite na companhia de minha esposa. Embora não devesse considerar a mudança de ânimos dela. Logo agora! Deveríamos estar com a relação mais sólida com a chegada do bebê. A ausência e os pensamentos longínquos devem ter relação com a maternidade.
Nada me tira mais do sério do que ficar preso no trânsito! – assim, Marcelo seguia por um emaranhado de vias, ruas e becos que se, após alguns instantes, fosse indagado acerca do caminho que trilhou, ele mesmo não saberia responder. A certa altura, já próximo a sua casa, Marcelo franzi a testa devido à impressão de ter visto um rosto conhecido. Quando aqueles sulcos se acentuavam na face de Marcelo, era quase certeza. Ele pára. Olha pelo retrovisor e reconhece a silhueta da figura na esquina, sentada ao meio-fio. Sim, é ele! Marcelo estaciona o carro e segue, agora a pé, em direção a Jorge.
Jorge fora um amigo muito íntimo do casal. Sempre presente. Prestativo. O que nunca ficou claro – e minha esposa nunca se posicionara em relação a isso – dizia respeito ao seu sumiço. Jorge sumira. Atendia o celular, verdade, mas nunca conversava. Ocupado, muito! Não almoçaremos! Não dá! Nunca mais viria a nossa residência. Não, nunca.
Ao vê-lo ali, abaixado, na sarjeta mesmo, os cabelos cobrindo-lhe a fronte. A face descaída como se nos ombros amparasse todas as angústias do ser humano. Os olhos, catalépticos, rijos fixavam o nada. Um fugitivo! Marcelo perscruta-o: o que houve, homem? Agora perplexo: você, nesse estado?! Me diga, vamos? Com a disposição de quem luta para salvar um filho do abismo, Marcelo esforçasse para erguer Jorge, segurando-lhe por baixo dos ombros. Chumbo, puro chumbo! É quando percebe, ao aproximar-se, uma mancha de sangue no pescoço do amigo.
Marcelo, o filho não era meu!