sábado, 26 de dezembro de 2009

VIOLÊNCIA

Fujo. A porta dos fundos parece-me o caminho mais seguro. Transponho as intermináveis muralhas que delimitam os quintais e não consigo livrar-me da sensação de que estou sendo perseguida, ainda mais: estão em meu encalço. Ainda mais: sinto, e deveras, um hálito quente ao pé do ouvido. Mesmo tomada de terror, paro, o fôlego escasso me obriga. Olho para trás e não vejo nada.

Conheci-o ainda nova. Sem experiência, encantei-me. Homem atraente, cheio de qualidades e, como se não bastassem, com o incremento: aquele jeito cafajeste que toda mulher gosta. Logo vieram os planos: noivado, casamento... E a mudança. Sim, agora não se mostrava como antes: temperamento, atitudes, sentimentos. Tudo mudado. As agressões tornaram-se freqüentes e gradativamente mais sérias. Eram socos, pontapés. Na primeira gravidez, quase perdi a criança. Amaldiçoei-o e mais nada. Continuamos o relacionamento destrutivo. Mas até quando?

Acordei nesta manhã com o olho roxo e a boca inchada. Canalizara toda agressividade para o ato. As doses eram paulatinas agora. Durante o almoço esbofeteou-me, bateu tanto e com tamanha força que sai de mim e, desfalecida por horas, fiquei prostrada no chão da cozinha. Não permitiu que meus filhos me acudissem. Minha pele já fria e azulada. Até quando?
A luz diluía-se. Estranhei o silêncio das crianças e ao aproximar-me do quarto, escutei o choro engolido delas. Minhas criancinhas! Atormentadas pelo meu fantasma. Senti-me compelida a parar aquilo.
O resquício do dia à porta da cozinha, os fundos da casa. Para trás, meu fantasma. Meu marido morto à faca. Ele deitado ao sofá, dormente de sono e autoconfiança. A lâmina perpassou seu peito, o coração. O sono continuara.
Até agora!

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