sábado, 26 de dezembro de 2009

ESPELHO

Quase sempre, pela manhã, caminho em um parque aqui próximo. Bem, por aqui quase tudo é próximo. Mas é agradável. Temperatura amena, ar fresco. Coisas que ajudam arejar a cabeça. Acredito que você, meu caro leitor, deveria experimentar. Depois de algumas horas e alguma atividade, acredito: se sentirá renovado e com as energias repostas.
De volta pra casa normalmente sigo o trajeto mais longo. É o momento em que me pego contemplando nada de especial. Tento aproveitar o restinho da manhã que se vai. Certa vez, num desses retornos, deparei-me com uma conversa, um pouco a minha frente. Aconselho ao leitor, não agir assim, não é ético, mas... Aconteceu. Eram quatro meninas e uma delas perguntava a aparentemente mais nova o porquê dela querer ir ao Rapozão, salientava ser um local perigoso, mal freqüentado. Parecia realmente preocupada. Então foi interrompida por outra que queria saber o mesmo, mas sua feição era de quem desconfiava de alguma coisa. A garotinha não respondeu e, ajeitando o cabelo, disse que a amiga havia prometido ir com ela. A desconfiada mudou o tom da voz e parecia querer intimidar a aventureira do Rapozão, mas não antes de lançar-lhe sucessivas e ininterruptas indagações sobre essa investida. Ela dizia “Tu vai fazer o que lá?”, “Menina, eu sei... Você vai é pro ‘changô’!” e continuava “Eu sei, vejo todas aquelas coisas que você escreve e desenha no caderno. Hum, coisa feia!”. As acusações deixaram nossa bandeirante nervosa, não admitia nem negava a intenção da investida no lugar. No entanto ficou triste. As amigas insistiam em abrir-lhe os olhos para ela fugir daquilo, que era tudo do demônio. Era percebível sua mudança de ares: de alegre, quase saltitante, a consternada, desviando o olhar para não ter descoberta à veleidade de seu íntimo. Seguiram caminho. O que não seguiu foi esse momento em mim. E pensei numa proposta para nossa sociedade, sociedade esta de princípios Divinos: devemos mudar a constituição, proibir a liberdade de culto. Restringir manifestações culturais que não sejam de caráter europeu, que não tenham suas raízes lá. Tal proposta sanaria por vez essas diferenças. Pois, como todos sabemos - digo todos, amigo leitor, por que você está intimamente ligado a essa realidade – o Brasil é um país de origem européia. Somos muito louros, alvos, sem falar nos comuns olhos azuis. Tudo leva a crer não termos nenhuma ascendência com as tantas etnias pertencentes à África. Nem consta, na ciência, haver pesquisa que comprove ser nela o berço da humanidade. Então, nem humanos somos, quem dentre nós irá preocupar-se com tais coisas externas? A nossa magnificência “branca” é o que importa!

2 comentários:

  1. Parabéns pela iniciativa. Você verá como o blog é uma ótima ferramenta para os escritores. Amanhã voltarei com mais tempo.

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  2. Erick, gosto muito do seu jeito de escrever acerca da vida. Continue assi. Bjos, Graúna

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