sábado, 26 de dezembro de 2009

...

...parecia não ter vivido a vida. Quando cheguei, nos momentos que precederam sua morte, sua feição estava mudada e no instante... Retesou-se, estendeu cada músculo que nele mantinha algum domínio: as mãos, a musculatura do pescoço, os pés estendidos. Os dentes cerrados e depois as mãos, contraídas, levava-me a crer que estava agarrando-se a tudo que poderia prolongar aquela brevidade. Só os olhos, estes não os víamos. De tão fechados, pensei numa criança protegendo-se do escuro. Oitenta e quatro anos é muito tempo. Há muito não conversávamos. Suas histórias, os sonhos que me revelava, marcaram-me. Tudo era misterioso e fascinante, mas tornei-me tão céptico. Bem, nessa hora não demonstrava a serenidade de nosso último encontro em que já não falava, mas o olhar de antes era de consciência de seu tempo.
Sempre reclusa, não foi pessoa de muitos amigos, preferia a leitura, a companhia de um gato e café, este último bastante. Atravessava as noites lendo. Atraiam-lhe textos estranhos, alguns de religiões variadas, principalmente as mais antigas, não cristãs. Lembro-me vagamente de passear com ela, durante a noite, na época não entendia para que as velas, talvez algum ritual. Não sei, foi a única vez. Lembro de meu pai discutindo com ela.
Depois do enterro, minha mãe pediu que passasse um tempo aqui. A casa era grande, alguns familiares também vieram para cá: uma tia, seu marido e a filhinha de quatro anos. Mudaram-se a pouco e ainda não os cumprimentara.
Decidi ficar, talvez pensasse em resgatar alguma lembrança perdida. Vaguei pela casa. Havia um corredor que dava para as escadas do andar de cima, onde ficavam os quartos. Corredor largo, de quase dois metros com alguns quadros distribuídos à direita. Eram retratos da mãe de minha tataravó, trisavó e avó que eu acabara de perder, não sei por que a alternância nas gerações. Quem sabe? Olhando bem, os quadros eram bastante similares: as mesmas jóias, a pose três quartos que afinal favorecia minha avó, pois ocultava uma cicatriz na face esquerda, próxima a angulação do maxilar. As expressões eram as mesmas. Não sei se por artimanha dos artistas, não os conheci e as obras não estavam assinadas. Era agora uma tradição. Como nascem as tradições? Quando decidimos preservar certos comportamentos ou mesmo objetos? Sentia a falta dela. Não tanto quanto acho que deveria. Acredito que a distância faz isso conosco.
Nesse momento escutei passos, leves, mas rápidos. Sabia quem sapateava. O ciclo da vida se renovara. Minha prima agora era a luz desta casa. Ao virar-me, para a entrada do corredor, vi-a saltitante, brilhante como o sol e de repente escorregou. Esses pequenos dão os passos maiores que as pernas até realmente aprenderem. Agachei-me para levantá-la, fitou-me com aqueles olhos grandes e verdes, o mesmo olhar dos quadros, sereno, e uma cicatriz... No ângulo esquerdo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário